“Nada sei. Mas vamos em frente!” por Marton Maués, o diretor:

Vez ou outra, gosto de postar em meu blog, escritas tão latentes, tessidas pelos meus companheiros de O mão de vaca. Então, eis que hoje deixo aqui as palavras de nosso diretor, escritas em 30 de dezembro de 2009, em seu blog www.unha-de-fome.spaceblog.com.br:

 

Um dia, ainda moleque, eu vi uma peça de teatro em um circo, A escrava Isaura, lá onde nasci e cresci, Macapá, cidade nde a televisão chegou quando eu já tinha 14 anos, e já era o ano de 1975. Fiquei impressionadíssimo com o drama daquela escrava, atento às questões ali abordadas e muito curioso com aquela maneira de contar uma história. Era tão mal feito, mas tão maravilhoso para mim naquele momento…

Eu queria ser cientista quando pequeno. Depois, encasquetei de ser veterinário, apaixonado por cães que era (hoje tenho dois). saí de casa às vésperas de completar 18 anos, vim estudar em Belém, fazer vestibular para medicina veterinária, o que fiz e, claro, não passei. muita química, física… pra que?

sonhava ser diretor de cinema também. Achava o máximo. E resolvi ser artista, fiz oficina de teatro porque descobri que se fazia um bom teatro em Belém, sim. Na falta de um curso melhor, fiz vestibular para letras e, aos trancos e barrancos me formei depois de 11 anos. Curso grande esse meu. Trabalhei como auxiliar de secretaria, está na minha carteira de trabalho – meu primeiro emprego! Fui locutor por um tempo, repórter de jornal por outro tempo. Passei longa temporada em uma fundação cultural. Sempre trabalhando paralelamente no teatro. Fui ator, mas desejava ser diretor. E fui aprendendo o ofício. teatro sempre, empregos diversos aqui e ali. Virei professor de tetaro na universidade, virei diretor de teatro.

Outro dia, perguntei a um professor que se formou em Direção Teatral como era esse curso, pois sou diretor sem formação acadêmica. Ele não me deu resposta esclarecedora e eu continuo sem saber como se forma um diretor de teatro.

Vezenquando acho que não sei dirigir coisíssima nenhuma. Sempre que começo a trabalhar em algum espetáculo novo, juro, não sei por onde começar. Me olho no espelho e digo a mim mesmo: não sabes nada, cara, não sabes dirigir coisa nenhuma, és um imbusteiro!

Sigo com esta certeza, e vou indo, propondo coisas, ouvindo os atores, às vezes sem saber por onde começar, chagando ao ensaio sem nada na cabeça, nada no papel, nada: branco total. Aí dá um estalo, proponho algo ou alguém propõe ou um acidente acontece e a gente vai brincando com aquilo e… Ou eu começo do básico do básico e aquilo vai acontecendo, crescendo e, de repente, estamos todos ali criando, jogando, transformando aquele vazio, aquele nada, em algo pulsante. E os atores agem, fazem coisas, erram e os erros me impulsionam e vejo ali e acolá coisas e estimulo os atores e eles, sim, eles são sempre maravilhosos, não importa se erram, dão furo, fazem corpo mole, mas naqueles momentos em que estamos suando, jogando, jogando, jogando, a centelha acende, a coisa acontece e eu, estasiado, gozando o prazer da criação, o poder demiúrgico da criação, nesses momentos, junto com os atores maravilhosos, nesses momentos eu me sinto e acredito que sou um diretor de teatro.

Se um dia me perguntarem, como perguntei ao professor, não saberei responder como se forma um diretor de teatro. Talvez um dia seremos extintos, prega-se muito hoje a dramaturgia do ator, o ator-criador e outras coisitas mais. Acredito nisso. Mas meu tempo é esse, o do diretor, que se descabela, que aponta coisas aqui e ali para o ator, que joga com ele, que faz das tripas coração para que aquele ser divino, o ator – o ator é um ser divino! -, entenda o que ele, o diretor, um ser menor, terreno, humano, que se preocupa com coisas pequenas, que o ator entenda o que ele diretor deseja que ele ator faça e assim alcance não sei como o poder dos deuses. Se é que alcança mesmo. Acho que em muitos casos alcança.

o Diretor é o inferno do ator, mas também o seu céu. O ator é sempre o inferno do diretor, mas é nesse inferno que o diretor arde de prazer, chega ao êxtase.

Eu adoro dirigir teatro. Eu não sei fazer outra coisa com tanto prazer e não sei fazer isso bem, mas adoro fazer. Não sei como sei fazer, mas sei que faço sempre, mesmo quando digo que quero largar tudo, que não aguento mais, que vou embora e parar e vou morar numa cidadezinha do interior e vou dar aula na escolinha da cidade e viver modestamente… e minha cabeça fica rodando e rodando e rodando e pensando na próxima peça e na próxima cena e em como resolveria tal e tal cena que vi em tal e tal peça de tal e tal diretor… Eu penso e penso sempre em espetáculos de teatro.

O teatro é uma loucura. O teatro é a minha loucura!

Estou sofrendo muito com o processo d’O Mão de Vaca, nosso Avarento. Mas estou amando também, tudo o que criamos, o que conseguimos erguer até então. É muito, é pouco? Não sei. É bom, vai funcionar, agradar às pessoas? Não sei. Vai seu mais um sucesso do Grupo Palhaços Trovadores? Não sei. Vamos chegar ao fim, vamos conseguir terminar? Não sei.

Só sei que nada sei. Mas vamos fazendo.

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~ por suani correa em 28 janeiro 2010.

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