Ato III

ATO TERCEIRO

CENA I

Harpagon. Cleanto, Elisa, Valério, D. Cláudia, Joaquim, Brindavoine, Merluche

 

HARPAGON – Vamos a saber as minhas ordens… D. Cláudia, aproxime-se… (ela tem uma vassoura nas mãos) Bravo!… Pronta para o combate… Limpe direitinho, mas sobretudo tenha o cuidado de não esfregar muito os móveis, para não gastá-los depressa. Além disso, fica encarregada e zelar pelas garrafas durante o jantar… Se desaparecer alguma ou se quebrar qualquer coisa, será descontada em seus ordenados…

JOAQUIM – (à parte) – Castigo político!

HARPAGON – Pode ir… (Cláudia sai) Tu, Brindavoine, e tu, Merluche, ficam encarregados de lavar os copos e servir as bebidas, mas apenas quando houver sede, sede de fato, e não segundo os costumes de certos lacaios impertinentes que provocam as pessoas, fazendo-as beberem quando elas nem se lembram disso… Esperem sempre que os convidados peçam e nunca atendam ao primeiro pedido… Lembrem-se de que há muita água nas nossas bicas.

JOAQUIM (á parte) – Claro!… O vinho puro sobe à cabeça…

MERLUCHE – Devemos despir os guarda-pós, meu amo?

HARPAGON – Sim, mas só quando os convidados chegarem. E muito cuidado para não sujarem as roupas.

BRINDAVOINE – O senhor bem sabe, patrão, que um dos lados do meu gibão está manchado de azeite!

MERLUCHE – E o meu calção está rasgado nos fundilhos, deixando ver, com perdão da má palavra…

HARPAGON – basta!… Arranja-te para ficar sempre de costas para a parede e de frente para os convidados… (põe seu chapéu diante do próprio gibão, para mostrar a Brindavoine como se deve proceder para ocultar a mancha de óleo) Conserva o teu chapéu sempre assim, enquanto estiveres servindo… (saem os dois – a Elisa) Quanto a você, minha filha, preste atenção à retirada dos pratos e copos, e tome cuidado para que não haja prejuízos. É uma ocupação digna de uma moça… Mas prepare-se para receber convenientemente a minha noiva, que vem aqui visitá-la, e leve-a consigo à feira… Está ouvindo o que eu digo?…

ELISA – Estou, meu pai. (sai pela esquerda)

HARPAGON – E o senhor, filho ingrato a quem eu perdôo aquele negócio do empréstimo, não caia na asneira de fazer má cara a essa moça, hein?!…

CLEANTO – Eu, meu pai, fazer má cara?!… Por que julga que farei isso?…

HARPAGON – Eu bem conheço a atitude dos filhos cujos pais tornam a casar e de que maneira eles olham para as pessoas com quem são forçados a chamar de madrasta… Mas se o senhor deseja que eu esqueça a sua última aventura, deve ser bastante cortês para com a minha futura esposa, fazendo-lhe a melhor acolhida possível! 

CLEANTO – Para ser franco, meu pai, não me sinto muito à vontade com a idéia de que ela será minha madrasta. Mentiria se afirmasse isso… Mas quanto a recebê-la bem e ser gentil para com ela, posso garantir que obedecerei cegamente…

HARPAGON – Ao menos procure dissimular… (sai Cleanto) Agora, Valério, ajude-me… Joaquim, aproxime-se… Deixei-o de propósito para o fim

JOAQUIM – è ao cocheiro ou ao cozinheiro que o senhor vai falar?… Porque aqui eu sou duas coisas.

HARPAGON – É aos dois.

JOAQUIM – Mas qual deles em primeiro lugar?

HARPAGON – Ao cozinheiro.

JOAQUIM – Um momento, então… (tira seu casaco de cocheiro e aparece vestido de cozinheiro)

HARPAGON – Que cerimonial é esse?!…

JOAQUIM – Pode falar ao cozinheiro, patrão.

HARPAGON – Estou resolvido a dar um jantar, hoje.

JOAQUIM – Que milagre!

HARPAGON – Está disposto a fazer as coisas convenientemente?

JOAQUIM – Claro, se o senhor me der o dinheiro necessário!

HARPAGON – mas que horror, meu Deus!… Dinheiro, sempre dinheiro!… Parece que eles não têm outra coisa para dizer… “Dinheiro, dinheiro, dinheiro!”… Uma palavra só: dinheiro!… Eis o livro de cabeceira de todos vocês: dinheiro! Sem dinheiro não se sabe fazer nada!

VALÉRIO – Nunca vi resposta mais impertinente do que essa que deu!… Que grade vantagem, fazer as coisas como convém, desde que haja dinheiro bastante… Mais isso é a coisa mais fácil do mundo e não há cretino que não possa realizá-la!… A maior habilidade consiste em fazer bem, com pouco dinheiro…

JOAQUIM – Bem… com pouco dinheiro?!… Palavra de honre, Sr. Intendente, que eu gostaria de saber o segredo desse processo e peço-lhe que assuma, desde já, o meu cargo de cozinheiro…

HARPAGON – Cale-se!… Diga o que precisa…

JOAQUIM – nada, nada, patrão!… Eis ali o Sr. Intendente que sabe fazer as coisas muito bem, com pouco dinheiro…

HARPAGON – Irra!… Não me aborreça!… Eu quero que responda ao que perguntei!…

JOAQUIM – Quantas pessoas há para o jantar?

HARPAGON – Teremos oito ou dez convidados, mas calculemos por oito, porque onde comem oito, comem, perfeitamente, dez…

VALÉRIO – Lógico!

JOAQUIM – Precisamos então de… entrada, sopa e cinco pratos…

HARPAGON – Você quer alimentar uma cidade inteira?

JOAQUIM – um assado…

HARPAGON (pondo a mão sobre a boca do criado) – Cale-se, traidor, que eu vou ficar arruinado!

JOAQUIM – Precisamos de…

HARPAGON (idem) – E ainda insiste?…

VALÉRIO – será que você quer arrebentar todo mundo?… e que o patrão convidou amigos para assassiná-los à força de comida?… Leia um pouco os preceitos da saúde e pergunte aos médicos se há alguma coisa de mais prejudicial que comer em excesso!

HARPAGON – Isso mesmo!… Isso mesmo!…

VALÉRIO – Fique sabendo, mestre Joaquim, e ensine aos seus colegas, que uma mesa muito farta é um crime!… Que para nos mostrarmos amigos daqueles a quem convidamos é preciso que a frugalidade reine nos jantares que oferecemos… E que, segundo um filósofo célebre: “É preciso comer para viver e não viver para comer”…

HARPAGON – Bravo!… Que bela frase!… Meus parabéns, Valério!… Eis a mais bonita sentença que já ouvir na vida… “É preciso viver para comer e não comer…” Não, não é isso!… Como é mesmo?

VALÉRIO – “É preciso comer para viver e não viver para comer.”

HARPAGON – Isso, Isso!… (a Joaquim) Está ouvindo, traidor?!… (a Valério) Quem foi o grande homem que disse isso?!…

VALÉRIO – Não me lembro mais do nome…

HARPAGON – Pois há de me escrever isso direitinho, Valério, para que faça gravar essa sentença em letras douradas na parede da sala de jantar…

VALÉRIO – Não tenha medo… E quanto ao jantar, deixe tudo por minha conta… Eu arranjarei as coisas da melhor maneira…

HARPAGON – Está bem…

JOAQUIM – Tanto melhor, porque assim eu não terei muito trabalho.

HARPAGON (a Valério) – Devemos arranjar pratos que satisfaçam depressa, sem a necessidade de comer muito… Muitas gorduras e massas bem pesadas…         

VALÉRIO – Descanse, Sr. Harpagon…

HARPAGON – Agora, Mestre Joaquim, é preciso limpar a minha carruagem…

JOAQUIM – Um momento… Isso é com o cocheiro… (veste o casaco) O senhor dizia que…

HARPAGON – Que é preciso limpar a minha carruagem e ter os cavalos prontos para uma visita à feira…

JOAQUIM – Seus cavalos, meu amo?… Mas eles não estão, absolutamente, em condições de andar! Não direi que estejam de cama… Porque nem mesmo cama têm… Mas o senhor os obriga a jejus tão rigorosos que os pobres animais não são mais do que vagas idéias, fantasmas apenas… espécies… de cavalos.

HARPAGON – Então adoeceram de não fazer nada!…

JOAQUIM – E como nada fazem, patrão, nada devem comer?… Valeria mais a pena se trabalhassem bastante e comessem melhor… Corta-me o coração vê-lo assim debilitados… Porque, afinal de com tas, eu tenho a minha ternura pelos pobres bichos… e parece que também sofro com sofrimento deles… Muito do que me cabe em matéria de comida eu dou aos infelizes animais,patrão, porque acho que é feio não ter piedade pelo seu próximo.

HARPAGON – Mas um passeio à feira não é trabalho assim tão grande…

JOAQUIM – Não, meu amo, eu não terei coragem de conduzi-los, e sentirei ter que bater-lhes com o chicote, no estado em que eles estão… Como quer que arrastem uma carruagem, se nem a si próprios se podem arrastar?

VALÉRIO – Eu pedirei ao cocheiro do visinho para levar o carro, meu patrão… è melhor mesmo que Mestre Joaquim fique em casa, para não atrasar o jantar…

JOAQUIM – Façam o que quiserem… Prefiro que os pobres animais morram das chicotadas de um outro…

VALÉRIO – Mestre Joaquim é bastante impertinente!

JOAQUIM – O Sr. Intendente é bastante habilidoso!

HARPAGON – Basta!…

JOAQUIM – Patrão, eu não posso suportar aduladores!… E vejo que ele fez, com as suas eternas fiscalizações sobre o pão, a lenha, o sal, o vinho e o azeite, um trabalhinho muito hábil para conquistar as suas graças… Irrito-me com isso, e zango-me todos os dias ouvindo o que dizem por aí do senhor… Porque, afinal de contas, eu também sinto pelo senhor uma certa afeição… Depois dos cavalos, o senhor é a pessoa a quem eu mais estimo…

HARPAGON – Eu poderia saber, Mestre Joaquim, o que dizem de mim por aí?…

JOAQUIM – Talvez, patrão, se eu tivesse a certeza de que não se zangaria…

HARPAGON – Mas eu não me zangarei. Mestre Joaquim… Ao contrário… Terei um grande prazer em ouvi a opinião alheia a meu respeito…

JOAQUIM – Visto que insiste, eu direi francamente que o senhor é motivo para todos os deboches… Que ouvimos em todos os lugares, mil pilhérias a seu respeito… Que mil e uma anedotas circulam sobre as suas atitudes íntimas… Um diz que o senhor faz imprimir, secretamente, falsos almanaques do ano, para dobrar os dias de jejum e de vigília, a fim de economizar na alimentação de seus criados… Outro afirma que sempre que vai pagar ordenados ao pessoal doméstico o senhor faz chicana e prejudica nas contas… Este conta que certa vez o senhor processou um gato que roubou da cozinha um pedaço de carneiro… Este outro, que o senhor foi surpreendido, uma noite, a roubar a aveia de suas próprias cavalariças e que seu cocheiro nessa época, estando no escuro, não pode reconhecer o ladrão e deu lhe um enorme surra… Que quer mais, patrão?… Não podemos entrar num fornecedor sem ouvir histórias… O senhor é a fábula e a galhofa de todo mundo… E nunca falam do senhor sem empregar palavras duras: avarento, chicaneiro, ladrão…

HARPAGON (agredindo-o) – E você é idiota, cretino. Vagabundo, malcriado!…

JOAQUIM – Eu bem dizia que o senhor ia ficar zangado ouvindo a verdade!…

HARPAGON – Pois aprenda como se deve dizer a verdade!… (sai pela direita)

 

CENA II

Valério, Joaquim

 

VALÉRIO (rindo) – Pelo que se pode ver, Mestre Joaquim, pagaram mal a sua franqueza!…

JOAQUIM – Irra, senhor recém-chegado que toma ares de importante!… Que é que o senhor tem com isso?… Ria-se das surras que receber, quando chegar a sua vez, mas não venha rir das que os outros recebem…

VALÉRIO – Oh! Mestre Joaquim!… Não se zangue, por favor!…

JOAQUIM (baixo, à parte) – Ele está mansinho!… Vou fazer o valentão e, se ele não reagir, cobro as pancadas que recebi… (alto) O senhor sabe, cavalheiro risonho, que eu não acho graça nenhuma nisso?… E que se o senhor me esquentar a cabeça rirá de maneira diferente?… (empurra Valério para o fundo da cena, ameaçando-o)

VALÉRIO (fingindo-se amedrontado) – Mas o que é isso, Mestre Joaquim?… Calma!…

JOAQUIM – Calma, por quê?.. o senhor não me agrada, sabe?… É um impertinente!

VALÉRIO – Mas… Mestre Joaquim…

JOAQUIM – Não há Mestre Joaquim nem meio Mestre Joaquim!… Se eu apanhar uma bengala liquido num relâmpago a sua importância!

VALÉRIO – Como?… Uma bengala?!… Mas aqui está uma… (obriga Joaquim a recuar na mesma distância em que recuou)

JOAQUIM – Quer dizer…

VALÉRIO – fique sabendo, valentão das dúzias, que eu sou homem para manejar uma bengala melhor do que imagina!…

JOAQUIM – Não duvido, Sr. Intendente!…

VALÉRIO – sabe que, feita as contas, não passa de um idiota?

JOAQUIM – Sei, sim senhor.

VALÉRIO – e que não conhece ainda o meu gênio?

JOAQUIM – Desculpe, Sr. Intendente!…

VALÉRIO – Estava, então, disposto a me surrar, hein?..

JOAQUIM – Era brincadeira!…

VALÉRIO – Mas eu não gosto de brincadeiras, ouviu?!… (dá-lhe duas ou três pancadas com a bengala) E o senhor é um brincalhão de muito mau gosto!… (sai pela direita)

JOAQUIM (sozinho) – Maldita seja a sinceridade!… É péssimo ofício!… Para o futuro renuncio a ser sincero e jamais direi a verdade… Ainda quanto ao patrão, passa… ele tem, mais ou menos, o direito de me bater… Mas quanto a esse Sr. Intendente… Bem1… Ele não perde por esperar…                                                  

 

CENA III

Mariana, Frosina, Mestre Joaquim

 

FROSINA – Sabe se seu patrão está em casa, Mestre Joaquim?

JOAQUIM – Infelizmente eu tenho a certeza que está…

FROSINA – Então faça o favor de ir dizer-lhe que nós já chegamos… (Joaquim sai pela direita)

 

CENA IV

Mariana, Frosina

 

MARIANA – Ah! Frosina!… Que terrível situação!…

FROSINA – Por quê?

MARIANA – Você ainda pergunta?… Não compreende, então, as torturas de uma vítima prestes a ver o suplício ao qual querem entregá-la?…

FROSINA – O que eu compreendo é que, para morrer agradavelmente, Harpagon não é bem o suplício que desejaria… E compreendo também que o jovem galã, de quem me falou, está perturbando um pouco seu espírito…

MARIANA – Sim, Frosina… É uma coisa que eu não posso ocultar… As respeitosas visitas que ele fez à nossa casa causaram na minha alma grande impressão, confesso francamente…

FROSINA – Mas ao menos soube quem era ele?

MARIANA – Não, eu não sei quem é… Mas sei que ele é feito para ser amado… que, se me fosse permitido escolher, era a ele que eu escolheria… que a sua lembrança contribui fortemente para transformar em um suplício espantoso o marido que me querem dar…

FROSINA – Eu bem conheço esses galãs de hoje!… São todos muito agradáveis e dizem coisas muito lindas… Mas na maioria são velhacos como ratos… e vale mais a pena ter um marido rico, que, embora velho, saiba dar conforto a esposa… Confesso que o coração não fala essa linguagem e que haverá alguns aborrecimentos com um marido já passado… Mas nosso homem não dura muito e, quando ele morrer, você ficará em condições de escolher um marido mais galante, para consertar o que estiver torto…

MARIANA – Negócio esquisito, esse, Frosina… Para sermos felizes, precisamos esperar a morte de alguém… Mas nem sempre a morte está de acordo com os nossos desejos e com os nossos projetos…

FROSINA – Qual!… Você só se casa com a condição de ficar viúva depressa… Aliás, isso deve constar no contrato nupcial… E ele seria importuno se não morresse dentro de três ou quatro meses… Ei-lo que chega!…

MARIANA – Oh!… Frosina!… Que cara!…

 

CENA V

Harpagon, Frosina, Mariana

 

HARPAGON (A Mariana) – Não repare, minha jovem, se eu apareço na sua frente de óculos… Bem sei que os seus encantos são bastante visíveis para dispensarem que usemos óculos… Mas, enfim, é com os óculos que se observam os astros e eu afirmo que você é um astro, o mais lindo, o mais brilhante que existe no país dos astros… (baixo, a Frosina) Frosina, ela não diz uma palavra e não parece muito satisfeita com a minha presença.

FROSINA – É a surpresa, muito natural… E além disso, as moças castas ficam sempre envergonhadas de revelar o que sentem…

HARPAGON – É mesmo… (a Mariana) Aqui está, minha jovem, a minha filha Elisa, que vem cumprimentar a sua beleza…

 

CENA VI

Elisa, Harpagon, Frosina, Mariana

 

MARIANA – Peço desculpas, senhorita, de ter retardado tanto esta visita de hoje.

ELISA – A senhorita fez hoje o que já deveria ter feito há muito tempo…

HARPAGON – Está vendo como é bem educada a minha filha?… E como é crescida?… Bem diz o ditado: “Erva má cresce sempre”…

MARIANA (baixo, a Frosina) – Que homem desagradável!

HARPAGON (idem) – O que foi que Lea disse?

FROSINA – Que o senhor é muito espirituoso!…

MARIANA (a parte) – Que idiota!

HARPAGON – Sua opinião a meu respeito muito me desvanece…

MARIANA (a parte) – Não sei como suportar isso!…

HARPAGON – Eis aqui meu filho que vem render homenagem aos seus encantos, minha jovem.

MARIANA (baixo, a Frosina) – É justamente o moço de quem eu falava…

FROSINA – Que maravilhosa aventura, meu Deus!…

HARPAGON – Vejo que está surpresa ao saber que tenho filhos tão crescidos… Mas dentro de pouco tempo estarei livre de um e outro…

 

CENA VII

Cleanto, Elisa, Harpagon, Frosina, Mariana

 

CLEANTO (a Mariana) – Para ser franco, minha senhora, devo dizer que esta é uma aventura com a qual eu jamais contaria!… E meu pai conseguiu me surpreender bastante quando me revelou, há pouco, os projetos que formara… 

MARIANA – Posso dizer que o mesmo me aconteceu quando tive conhecimento desses projetos. E confesso que não estava preparada para semelhante aventura…

CLEANTO – É verdade, minha senhora, que meu pai não poderia ter feito uma escolha mais feliz e que isso me proporciona a grande alegria de poder vê-la… Contudo, não garanto que me alegre a perspectiva de tê-la por madrasta, é um… Um galanteio, confesso, é um sacrifício para mim. E o título de madrasta é o que menos desejo para a senhora… O que eu digo poderá parecer brutal aos ouvidos de muitos, mas estou certo de que saberá compreender como ninguém o sentido das minhas palavras. Saberá julgar a repugnância que eu sinto por esse casamento e, sabendo quem sou, não ignora o quanto ele fere os meus interesses… E permita que eu lhe diga, com licença de meu pai, que se as coisas dependessem de mim, o enlace não se realizaria…

HARPAGON – Ora, aí está um discurso bem impertinente, senhor meu filho!

MARIANA (a Cleanto) – E eu, como resposta, tenha a dizer que penso da mesma maneira. E se o senhor tem repugnância em me ver como madrasta, eu ano tenho menos em vê-lo como meu enteado. Não receia, peço-lhe, que seja eu a causadora dessa situação. Muito me custaria que, por minha culpa, tivesse qualquer aborrecimento… E se não fossem circunstâncias imperiosas e absolutas, dou-lhe a minha palavra de que também eu não consentiria nesse casamento que tanto lhe desagrada.

HARPAGON – Muito bem dito!… Para um cumprimento estúpido, só resposta igual… Peço-lhe desculpas, minha jovem, das impertinências de meu filho… É um rapaz tolo, Que não mede as conseqüências das palavras que diz…

MARIANA – Acredite que nada do que ele disse me ofendeu. Ao contrário, teve a gentileza de me explicar nitidamente a natureza de seus sentimentos. Agradeço as revelações que fez. Se ele tivesse falado de maneira diversa, eu nunca o prejudicaria!…

HARPAGON – É muita bondade sua querer desculpar, assim, o seu erro… O tempo torná-lo-á mais sensato e há de ver que ele modificará os seus sentimentos…

CLEANTO – Não, meu pai!… Eu sou capaz de mudar e peço-lhe, minha senhora, que acredite sinceramente nisso!

HARPAGON – Mas que rapaz irritante!

CLEANTO – o senhor queria que eu mentisse ao meu próprio coração?

HARPAGON – O senhor quer ou não quer mudar de assunto?

CLEANTO – Está bem, meu pai… Visto que assim o deseja, exigindo que eu fale de outra maneira… (a Mariana) Permita, minha senhora, que eu me coloque no lugar de meu pai e confesse, em seu nome, nunca no mundo ter visto nada de tão encantador quanto a senhora… Que o título de “seu esposo” é uma glória, é uma ventura maior do que o destina de todos os grandes príncipes do mundo… Sim, minha senhora, a felicidade de possuí-la é, aos meus olhos, a mais bela de todas as fortunas… Minha ambição está presa a isso. E nada existe que eu não seja capaz de tentar para uma conquista tão preciosa… Os obstáculos mais poderosos…

HARPAGON – Calma, rapaz!… Calma!…

CLEANTO – Estou falando em seu nome, meu pai…

HARPAGON – Sim, mas eu tenho ainda uma língua para me explicar pessoalmente e ainda não tenho necessidade de um procurador como você… Vamos sentar?

(Entram Brindavoine e Valério)

FROSINA – É melhor irmos logo à feira, para voltarmos mais cedo… e para que tenham tempo, depois, de conversar melhor…

HARPAGON (a Brindavoine) – Atrelem os cavalos à carruagem… (a Mariana) Peço-lhe que me desculpe, linda jovem… por não ter pensado em oferecer qualquer coisa antes do passeio à feira…

CLEANTO – Eu pensei nisso, meu pai, e mandei buscar, em seu nome, laranjas da china, limões doces e confeitos.

HARPAGON (baixo, a Valério, sufocado) – Valério!…

VALÉRIO (baixo, A Harpagon) – Ele está maluco!…

CLEANTO – Não será isso bastante, meu pai?… a senhora terá a bondade de desculpar a minha inexperiência em tais assuntos…

MARIANA – Era perfeitamente desnecessário qualquer incômodo.

CLEANTO – A senhora já viu, em qualquer lugar, um diamante mais belo do que aquele que meu pai usa no dedo, minha senhora?…

MARIANA – De fato, ele brilha bastante…

CLEANTO (tirando a jóia do dedo do pai e oferecendo a Mariana) – Pode vê-lo à vontade…

MARIANA – è mesmo magnífico e lança chispas maravilhosas…

CLEANTO (colocando-se diante de Mariana e impedindo-a de restituir o anel) – Pode vê-lo á vontade… E não precisa devolvê-lo. Ele está em muito boas mãos… É um presente que meu pai tem a honra de fazer à sua noiva…

HARPAGON – Eu?!…

CLEANTO – Não é verdade, meu pai, que o senhor deseja que ela guarde o diamante, como penhor da amizade que lhe tem?…

HARPAGON (baixo, ao filho) – Traidor!…

CLEANTO – A senhora dá motivo a que meu pai se irrite comigo!…

HARPAGON (baixo, ao filho) – Assassino!… Traidor!… Miserável!…

CLEANTO – A senhora vai fazê-lo adoecer!… Por favor, não resista por mais tempo!…

FROSINA (a Mariana) – Pelo amor de Deus, menina!…  Guarde o anel, visto que o cavalheiro assim o deseja!…

MARIANA (a Harpagon) – Para não irritá-lo mais, senhor, aceito… e esperarei a oportunidade para agradecer melhor esta dádiva…

 

CENA VIII

Cleanto, Elisa, Harpagon, Frosina, Mariana, Brindavoine

 

BRINDAVOINE – Patrão, está aí um homem que procura pelo senhor…

HARPAGON – Agora estou ocupado. Ele que volte mais tarde ou outro dia…

BRINDAVOINE – Ele diz que traz dinheiro…

HARPAGON – Hein?!… Ah! (a Mariana) Desculpe… Eu volto já…

 

CENA IX

Cleanto, Elisa, Harpagon, Mariana, Merluche

 

MERLUCHE (entra correndo e quase derruba Harpagon) – Patrão, patrão…

HARPAGON – Oh! Desastrado, que me matas!…

 CLEANTO – Está machucado, meu pai?…

HARPAGON – Não… (afasta-o) Naturalmente o imbecil recebeu dinheiro dos meus credores para me assassinar!

VALÉRIO (a Harpagon, ajudando-o) – Não foi nada!…

MERLUCHE – Patrão, eu peço desculpas, mas pensei que fazia bem vindo mais depressa…

HARPAGON – Que queres?!…

MERLUCHE – Vim avisar que os dois cavalos estão desferrados…

HARPAGON – Levem-nos então à ferraria… Depressa…

CLEANTO – Enquanto esperam, vou fazer pelo senhor as honras da casa… e conduzir a senhora ao jardim, onde farei servir o lanche…

HARPAGON (baixo, a Valério) – Toma cuidado com esses esbanjamentos e procure evitar que comam demais…

VALÉRIO – Não tenha receio!… Pode contar comigo!…

HARPAGON – Oh! Filho desnaturado!… Terá ele acaso a preocupação de me arruinar?!…

 

 

 

PANO

 


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