Ato V

ATO QUINTO

CENA I

Harpagon, Comissário, seu Escrevente

 

COMISSÁRIO – Deixe-me trabalhar… Graças a Deus eu conheço o meu ofício… Não foi ontem que eu comecei a descobrir roubos… Gostaria de possuir tantos sacos de mil francos quantos ladrões já mandei enforcar.

HARPAGON – Se o meu dinheiro não for encontrado, eu pedirei justiça AA Justiça!

COMISSÁRIO – Preciso fazer todas as pesquisas exigidas… O senhor dizia que o cofre continha…

HARPAGON – Dez mil escudos, bem contados…

COMISSÁRIO – Dez mil escudos é um roubo bem considerável!…

HARPAGON – Ah!… E não existirá suplicio bastante justo para enormidade desse crime!… Se ele ficar impune, as coisas mais sagradas do mundo não estarão mais em segurança!

COMISSÁRIO – Em que espécie estava esse dinheiro?…

HARPAGON – Em boas moedas de ouro, reluzentes, palpitantes!

COMISSÁRIO – De quem suspeita?

HARPAGON – De todo mundo!… E quero que mande prender a cidade e os subúrbios, a França inteira!…

COMISSÁRIO – Não devemos amedrontar ninguém com a prisão… Trataremos de obter, calmamente, algumas provas, a fim de proceder em seguida, com todo rigor, para recuperar o furto.

 

CENA II

Os mesmos, Joaquim

(ao fundo, à direita)

 

JOAQUIM (ao fundo da cena, voltando-se para dentro) – Votarei já… Degolem-no, assem-lhe os pés, metam-na na água fervendo e pendurem-no no teto…

HARPAGON – Quem?!… O miserável que me roubou?!…

JOAQUIM – Um leitão que o seu intendente me enviou e quero preparar à minha maneira.

HARPAGON – Está bem, mas não se trata disso, agora. Eis ali um cavalheiro a quem é preciso dizer certas coisas…

COMISSÁRIO – Não se assuste… Eu sou bastante discreto, para não fazer escândalo, e as coisas caminharão calmamente…

JOAQUIM – O senhor também é convidado?…

COMISSÁRIO – É necessário, meu amigo, nada ocultar do patrão…

JOAQUIM – Garanto-lhe, meu caro senhor, que mostrarei todo o que sei fazer e que farei tudo da melhor maneira possível.

HARPAGON – Não se trata disso, já disse.

JOAQUIM – Se melhor não faço, a culpa é do Sr. Intendente, que me cortou as asas com as tesouras de suas economias…

HARPAGON – Trata-se de outra coisa, traidor, e não do jantar, não ouves?!… Quero que me dês informações sobre o dinheiro que me roubaram!…

JOAQUIM – Roubaram-lhe dinheiro?

HARPAGON – Sim, velhaco!… E vou mandar que te enforquem, se não restituíres!…

COMISSÁRIO (a Harpagon) – Não o assuste, por favor!… Vejo pela sua cara que ele é um homem honesto, incapaz de mentir, e que sem muito esforço dirá tudo o que desejamos saber. (a Joaquim) Meu caro amigo… se confessar a história… nada de mal lhe acontecerá. Ao contrário, receberá de seu patrão uma justa recompensa… Roubaram-lhe uma certa quantia em dinheiro e Le acredita que você saiba alguma coisa…

JOAQUIM (á parte) – Eis o momento da vingança contra o intendente!…

HARPAGON – Que é que estás ruminando?…

COMISSÁRIO – Deixe, deixe… Está refletindo para nos auxiliar… Eu bem disse que era honesto e incapaz de mentir!…

JOAQUIM – Patão, se o senhor quer que eu lhe fale com franqueza, creio que foi o Sr.Intendente que cometeu o crime!

HARPAGON – Valério?!…

JOAQUIM – Sim.

HARPAGON – Ele me parecia tão fiel?!…

JOAQUIM – Ele mesmo!… Acredito que foi ele o autor do roubo!

HARPAGON – E por que acredita nisso?!…

JOAQUIM – Eu acredito…  porque… acredito…

COMISSÁRIO – Mas é preciso dizer em que se baseiam as suas suspeitas.

HARPAGON – Viste-o rondar em torno do lugar onde estava o me dinheiro?!…

JOAQUIM – Ah!… É mesmo!… Onde é que estava o dinheiro?…

HARPAGON – No jardim.

JOAQUIM – Justamente!… Vi-o andar pelo jardim… E o dinheiro estava colocado onde?…

HARPAGON – Em um cofre.

JOAQUIM – Pois eu vi o Intendente com um cofre!

HARPAGON – Vejamos se era o meu… Como era esse cofre?

JOAQUIM – Como era feito?

HARPAGON – Sim.

JOAQUIM – Era feito como… como um cofre…

COMISSÁRIO – Isto é claro!… Mas descreva-o para que tiremos nossas conclusões…

JOAQUIM – Era um cofre… grande…

HARPAGON – O que me roubaram era pequeno.

JOAQUIM – Bem, o cofre de eu falo não era assim tão grande, tão grande… Pensando bem, era até mais para pequeno…

COMISSÁRIO – E de que cor era?

JOAQUIM – De que cor?…

COMISSÁRIO – Sim, de que cor.

JOAQUIM – Era… de uma certa cor… indecisa… Os senhores não poderiam me ajudar um pouco a dizer isso?!…

HARPAGON – Como?!…

JOAQUIM – Não era encarnado?!…

HARPAGON – Não, era cinzento…

JOAQUIM – pois é… Cinzento-encarnado era o que eu queria dizer.

HARPAGON – Então não há duvida!… É o meu, com certeza… (ao escrevente) Escreva, senhor! Escreva o seu depoimento… Meu Deus! Não se pode mais confiar em ninguém!… Chego ao ponto de acreditar que até eu sou capaz de roubar a mim mesmo!…

JOAQUIM (a Harpagon) – Ei-lo que chaga, patrão… Ao menos não digam que fui eu quem o denunciou…

 

 

 

CENA III

Valério, Harpagon, Comissário, Escrevente, Joaquim

 

HARPAGON – Aproxime-se, Valério!… Vem confessar a ação mais negra e o mais horrível atentado que jamais foi cometido!…

VALÉRIO – Que deseja, senhor?

HARPAGON – Como assim, hipócrita?!… Não ficas envergonhado de teu crime?!…

VALÉRIO – De que crime, senhor?

HARPAGON – De que crime?!… Come se não soubesses o que quero dizer!… É inútil que pretendas disfarçar!… A história foi descoberta e acabam de me revelar tudo!… Abusar assim de minha bondade; penetrar em minha casa expressamente para me trair… que horrível papel fizeste!

VALÉRIO – Visto que descobriram tudo, senhor, não quero procurar desculpas ou negar meu ato.

JOAQUIM (à parte) – Será que acertei, sem querer?

VALÉRIO – Era o meu desejo falar-lhe, senhor… Estava esperando uma ocasião e circunstâncias mais favoráveis. Mais visto que tudo se precipitou, peço-lhe que não se zangue e que ouça as minhas razões.

HARPAGON – As tuas razões?!… E que razões poderia encontrar um ladrão como tu?!…

VALÉRIO – Ah! Meu senhor!… Eu não mereço tanta injuria!… É certo que cometi uma indignidade contra o senhor, mas no fim de contas a minha falta é muito perdoável!

HARPAGON – Perdoável… um quase assassino destes?!…

VALÉRIO – Peço-lhe que tenha calma!… não se exaspere!… quando tiver ouvido tudo, verá que o mal não é tão grande quanto parece…

HARPAGON – Hein?!… Que o mal não é tão grande quanto parece?!… como assim?!… Roubas meu sangue, minhas próprias entranhas, velhaco… e ainda dizes que…

VALÉRIO – Seu sangue não será misturado com sangue indigno, senhor!… garanto-lhe que não o deslustrarei!… e nada do que aconteceu é irreparável…

HARPAGON – Ainda bem!… Mas quero que me restituas o que me roubaste…

VALÉRIO – A sua honra ficará plenamente a salvo, senhor1

HARPAGON – Bolas para a honra!… Mas como foi que praticaste semelhante coisa?

VALÉRIO – Ai de mim, senhor!… Por que pergunta?…

HARPAGON – Para ouvir uma resposta! Por que fizeste isso?…

VALÉRIO – Por causa de um deus que explica tudo o que fazemos em seu nome: o amor.

HARPAGON – O amor?!

VALÉRIO – Sim.

HARPAGON – Lindo amor, na verdade!… Amor aos meus luíses de ouro!…

VALÉRIO – Não, senhor… Não foram as suas riquezas que me tentaram… Não foi isso que me seduziu eu afirmo nada desejar do que possui, com a condição de que me deixe aquilo que eu já possuo.

HARPAGON – Com a condição de… Nada disso!… Eu deixa que fiques com o que já me tiraste?… Mas que insolência e que ingenuidade quereres conservar o roubo que me fizeste!  

VALÉRIO – O senhor chama isso um roubo?!

HARPAGON – Se eu chamo um roubo?!… E há outro nome para classificar o delito?… Um tesouro como esse!…

VALÉRIO – É um tesouro, sem dúvida, e o mais precioso que o senhor possui… Mas nada perderá se ele ficar comigo… Peço-lhe de joelhos que me deixe esse tesouro, cheio de encantos… Se quiser praticar mais um bem em sua vida, não me pode recusar isso!

HARPAGON – Eu, não poder recusar o que me pedes?!… Ora que audácia!… Recuso, recuso, sim senhor!…

VALÉRIO – Nós nos prometemos uma fé mútua e juramos que nada nos separaria.

HARPAGON – A promessa é admirável, não resta dúvida e o juramento é muito divertido!

VALÉRIO – Nós nos prometemos pertencer eternamente um ao outro!

HARPAGON – Mas eu estou aqui para impedir isso, palavra de honra!…

VALÉRIO – Sá a morte nos pode separar!…

HARPAGON – Isso é o que se chama ter paixão pelo dinheiro alheio!…

VALÉRIO – Eu já lhe disse, senhor, que não foi o interesse que me levou a fazer o que fiz! Meu coração não agiu com falsidade!… Um motivo mais nobre inspirou a minha resolução.

HARPAGON – Os senhores vão ver que Le acabará por afirmar que foi movido por uma grande caridade cristã… Mas eu sei como proceder, velhaco sem escrúpulos, e a justiça está do meu lado.

VALÉRIO – Use-a como entender! Estou pronto a suportar todas as violências do mundo… Mas peço-lhe acreditar que sou eu o único culpado de tudo e sua filha está inocente!

HARPAGON – Minha filha?!… É claro que minha filha está inocente… Seria muito estranho que ela fosse cúmplice do crime… Mas quero reaver o que é meu e exijo que digas onde escondeste o que me roubaste.

VALÉRIO – Eu não escondi… Está aqui mesmo, em sua casa.

HARPAGON (à parte) – A minha querida fortuna está aqui… (alto) E… tu não lhe tocaste?!…

VALÉRIO – Eu, tocar-lhe?!… O senhor está enganado quanto as minhas intenções!… Foi com ardor puro e respeito que eu sempre a tratei… consumindo-me pro ela…

HARPAGON (à parte) – Consumindo-se pela minha fortuna?!…

VALÉRIO – Preferiria morrer a ofendê-la, mesmo em pensamento!… Ela é demasiado sensata e honesta para que isso acontecesse…

HARPAGON (à parte) – Sensata e honesta a minha fortuna?!…

VALÉRIO – todos os meus desejos se limitaram a gozar, vendo-a perto de mim… E nada profanou a paixão que sés belos olhos me inspiraram…

HARPAGON (à parte) – Mas ele fala da minha fortuna como um amante falaria de sua amada!…

VALÉRIO – A Srª Cláudia está a par de toda a verdade e poderá servir de testemunha…

HARPAGON – Como assim?!… Então aminha criada é cúmplice do negócio?…

VALÉRIO – Ela foi testemunha do nosso primeiro encontro… E depois de conhecer a honestidade de minhas intenções consentiu em me ajudar a persuadir sua filha a…

HARPAGON – Hein?!… Persuadir minha filha?!… (à parte) Será que ele enlouqueceu com medo do castigo?… (alto) Que é que minha filha vem fazer no caso?!

VALÉRIO – Eu digo, senhor, que tive todas as penas do mundo antes de fazê-la consentir em ser minha noiva, vencendo o seu adorável pudor…

HARPAGON – O adorável pudor de quem?

VALÉRIO – De sua filha… E foi apenas ontem que ela resolveu a ficar comprometida comigo, para o nosso casamento…

HARPAGON – Minha filha está comprometida contigo, em casamento?

VALÉRIO – E eu estou comprometido com ela.

HARPAGON – Maldição!… Maldição!… Maldição!… Outra desgraça!…

JOAQUIM (ao escrevente) – Escreva, senhor!… Escreva…

HARPAGON – É tudo muito pior do que eu pensava!… Maldição e desespero!… (ao Comissário) Vamos, senhor!… Cumpra o seu dever e lavre-me um processo contra esse miserável, como ladrão e sedutor!

VALÉRIO – São palavras um pouco duras as suas, senhor, e quando souber quem eu sou…

 

CENA IV

Valério, Joaquim, Comissário, Escrevente, Elisa, Mariana, Frosina, Harpagon

 

HARPAGON (vendo Elisa) – Ah! Filha desnaturada! Indigna de um pai como eu!… É assim que tu pões em prática as lições que recebeste?!… Deixas que um ladrão te ame e ficas comprometida com ele, sem meu consentimento?!… Mas estão enganados, um e outro!… (a Elisa) Quantos bons muros de convento resolverão a história!… (a Valério) Uma boa cadeia te ensinará, sedutor!…

VALÉRIO – Não será com toda essa raiva que as coisas se resolverão… E eu sei ouvido antes de qualquer castigo…

HARPAGON – Far-te-ei rodar vivo, amarrado à cauda de um cavalo!

ELISA (aos pés de seu pai) – Ah! Meu pai!… Fique mais humano. Peço-lhe, e leve o seu poder paterno ao extremo de violências inauditas!… Não se deixe arrastar por qualquer arrebatamento e reflita sobre o que vai fazer… Considere um pouco aquilo que tanto lhe ofende!… É bem diferente do que imagina… E acará menos estranho que tenha me comprometido com Valério quando souber que sem ele há muito eu já não estaria… Porque foi ele, meu pai, quem me salvou do grande perigo que eu corri quando quase me afoguei, e a ele o senhor deve a vida de sua filha…

HARPAGON – Nada disso interessa!… Seria melhor para mim que ele te deixasse afogar, em vez de fazer o que fez… 

ELISA – Meu pai… Em nome do amor que me dedica, peço-lhe que…

HARPAGON – Não, não… eu nada quero ouvir… A Justiça que cumpra o seu dever…

JOAQUIM (à parte) – Pagarás as bastonadas de hoje, bandido!

FROSINA (à parte) – Que coisa complicada!…

 

CENA V

Anselmo, Harpagon, Elisa, Mariana, Frosina, Valério, Joaquim, Comissário, Escrevente

 

ANSELMO – Que há de novo, Sr. Harpagon, e que perturbação é essa por aqui?

HARPAGON – Ah! Sr. Anselmo!… Eu sou o mais infortunado dos hímens!… O contrato que o senhor veio assinar parece completamente prejudicado. Assassinaram-me na fortuna e na honra… Eis aí um traidor, um celerado que violou os mais sagrados direitos e deveres de hospitalidade, que penetrou na minha casa sob o disfarce de criado para roubar meu dinheiro e seduzir minha filha!

VALÉRIO – Mas quem é que quer o seu dinheiro, senhor?!…

HARPAGON – Eles fizeram um ao outro uma secreta promessa de casamento. Essa afronta atinge também ao senhor, Sr. Anselmo, e ao senhor compete também tomar parte nos esforços que a Justiça envidará para punir os culpados…

ANSELMO – Não é meu desejo fazer-me desposar à força e nada poderei pretender de um coração que nada pretenda do meu… Quanto aos seus interesses, como amigo, estou pronto a considerá-los como meus, defendendo-os como for possível…

HARPAGON – Eis aqui o cavalheiro que é um excelente comissário de justiça e que nada esquecerá, segundo me afirmou, para punir convenientemente os culpados… (ao comissário, indicando Valério) Faça com lhe parecer melhor para que ele não possa escapar…

VALÉRIO – Não vejo que crime cometi, apaixonando-me por sua filha… E quanto ao suplicio que querem me impor em virtude do nosso compromisso, quando souberem quem sou…

HARPAGON – Pouco me importa o que o senhor é… O mundo hoje está cheio desses malandros e impostores que levam vantagem com a sua obscuridade, vestindo-se com o primeiro nome ilustre que lhe vier à cabeça.

VALÉRIO – Saiba que eu sou bastante fidalgo para desdenhar as roupas que não me pertencem e que toda a cidade de Nápoles pode testemunhar em favor do meu nascimento…

ANSELMO – Cuidado, rapaz!… Cuidado com que afirma!… Está arriscando mais do que pensa, porque fala diante de um homem que conhece toda a cidade de Nápoles e que poderá facilmente ver claro na história que contar…

VALÉRIO (colocando orgulhosamente seu chapéu) – Eu nada receio e, se toda Nápoles era conhecida sua, não deve ignorar quem era D. Thomaz d´Alburcy!…

ANSELMO – Naturalmente que não ignoro!… E poucos poderão tê-lo conhecido melhor do que eu…

HARPAGON – Pouco me importa D. Thomaz ou D. Martinho!… (vendo duas velas acessas, apaga uma)

ANSELMO – Calma!… Deixe que ele fale e explique melhor as coisas… Que quer dizer?

VALÉRIO – Eu quero dizer que sou filho de D. Thomaz d`Alburcy!…

ANSELMO – Filha dele?!…

VALÉRIO – Sim.

ANSELMO – Não brinque, moço!… Procure qualquer outra história que possa ser mais convincente e não permita impor uma tal impostura!…

VALÉRIO – E o senhor, procure falar com mais respeito! Não se trata, absolutamente, de uma impostura e nada digo que não possa ser comprovado…

ANSELMO – Ousa, então, afirmar que é filho de D Thomaz d`Alburcy?!…

VALÉRIO – Ouso, e estou pronto a sustentar essa verdade contra tudo e contra todos.

ANSELMO – Que maravilhosa audácia!… Saiba então, para liquidar a questão. Que há dezessete anos, mais ou menos, o homem de quem fala morreu num naufrágio, com seus filhos e sua esposa, ao fugir às cruéis perseguições que se seguiram às desordens políticas de Napoles e que forçaram muitas famílias a se exilar…

VALÉRIO – Sim, mas saiba então o senhor que um filho desse homem, uma criança com sete anos de idade, foi salvo por um navio espanhol, em companhia de um criado, e que esse filho sou eu… Saiba que o comandante do navio, comovido pela minha sorte, tomou-se de interesse por mim, que eu fui criado como seu filho, e que as armas foram o meu único ofício, desde que me entendi… Saiba que um dia me informaram de que meu pai não tinha morrido, como todos acreditavam… Que passando por aqui, à procura dele, encontrei Elisa e fiquei escravizado pelas suas belezas… Que a intensidade do meu amor e as severidades do pai dela forçaram-me a entrar nessa casa como um simples criado, enviando um outro a procura de meu pai.

ANSELMO – Mas que testemunhas mais, além das suas palavras, podem servir para demonstrar que tudo isso é verdade?…

VALÉRIO – O capitão espanhol, primeiro; um saquinho de rubis que pertencia a meu pai; um bracelete de ágata que minha mãe colocou no meu braço quando partimos… e o velho Pedro, o criado que se salvou comigo no naufrágio…

MARIANA – Ai de mim!… Pelas suas palavras eu posso afirmar que você está falando a verdade e o que diz informa, sem possibilidade de erro, que eu sou sua irmã…

VALÉRIO – Você, minha irmã?!…

MARIANA – Meu coração se convenceu desde que você começou a falar… Nossa mãe, que vai ficar encantada sabendo que você existe, me contou mil vezes a nossa aventura… as desgraças da nosso família… Quis Deus que não morrêssemos nesse naufrágio… Mas salvamos a vida em troca de nossa liberdade… Foram uns corsários que nos recolheram, a minha mãe e a mim, semimortas, sobre os destroços do navio. Após dez anos de escravidão, um acaso feliz restituiu-nos à liberdade e voltamos a Nápoles, onde já nada mais encontramos… Nem mesmo notícias de nosso pai… Fomos estão a Gênova, onde minha mãe recebeu os restos de uma pequena herança, e de lá, fugindo à injusta barbaria de seus parentes, viemos para aqui, onde vivemos na mais cruel e mais dolorosa das incertezas.

ANSELMO – Louvado se Deus!… Só por um milagre poderia eu viver um momento como este!… Beijem-me, meus filhos!… Dividam um pouco a alegria desse encontro, com vosso pai…

MARIANA – O senhor é aquele por quem minha mãe tanto tem chorado?!…

ANSELMO – Sim, minha filha… Sim, meu filho… Eu sou D. Thomaz d`Albuscy, que Deus salvou das ondas com todo o dinheiro que possuía… Imaginando que todos vocês tinham morrido, após dezesseis anos de procuras e de incerteza, eu buscava em um novo casamento as doces alegrias da família. O perigo que havia para mim, se eu voltasse a Nápoles, forçou-me a renunciar para sempre ao meu passado e aqui tomei um novo nome, para fugir aos desgostos que o antigo tanto me causou…

HARPAGON (indicando Valério) – Então ele é seu filho?!…

ANSELMO – Está provado que sim…

HARPAGON – Então o senhor fica responsabilizado pelos dez mil escudos que ele me roubou.

ANSELMO – Ele roubou dez mil escudos do senhor?…

HARPAGON – Roubou, roubou…

VALÉRIO – quem lhe disse isso?…

HARPAGON – Mestre Joaquim.

VALÉRIO (a Joaquim) – Tu disseste isso?!…

JOAQUIM – O senhor bem vê que estou calado…

HARPAGON – Ali está o Comissário que tomou as suas declarações…

VALÉRIO – E o senhor acreditou que eu fosse capaz de uma ação tão baixa?!…

HARPAGON – Capaz ou não, eu quero reaver meu dinheiro!…

 

CENA VI

Os mesmos, Cleanto, La Flèche

(ao fundo, à esquerda)

 

CLEANTO – Não se desespere mais, meu pai, e não acuse ninguém pelo furto dos dez mil escudos. Descobri onde está o seu dinheiro e venho aqui para declarar que, se o senhor consentir meu casamento com Mariana, ele lhe será restituído…

HARPAGON- Onde ele está?!… Você sabe?!…

CLEANTO – Mão tenha receio!… Está em lugar seguro e a sua restituição depende apenas de uma ordem minha… Cabe ao senhor resolver sobre a proposta que lhe fiz… Escolha: ou consente em me dar Mariana ou perde o cofre.

HARPAGON – Não mexeram no que ele contém?

CLEANTO – Está como estava!… Dê a sua aprovação e eu serei o mais feliz dos homens… Poderei pedir, então, o consentimento da mãe de minha amada…

MARIANA (a Cleanto) – Já não basta apenas o consentimento de minha mãe, Cleanto, pois eu agora tenho um irmão e um pai… (indica os dois homens)

ANSELMO – Deus não me restituiu os meus dois filhos para que eu os contrariasse. Sr. Harpagon, não recuse a esses jovens a felicidade que eles bem merecem e consinta, como eu também consinto, nesse duplo casamento.

HARPAGON – Para que eu possa deliberar sobre qualquer coisa, preciso rever meu querido cofre.

CLEANTO – O senhor vai revê-lo puro e imaculado.

HARPAGON – Além disso, não possuo um vintém disponível para o dote dos meus filhos…

ANSELMO – Não importa!… Eu tenho dinheiro bastante para ambos…

HARPAGON – E o senhor se responsabiliza por todas as despesas?!…

ANSELMO – Com grande prazer. Está satisfeito?!…

HARPAGON – Ainda não… Preciso de uma roupa nova para as bodas…

ANSELMO – Seja. Eu pagarei a roupa… E agora vamos gozar juntos, a alegria que o dia de hoje nos proporcionou…

COMISSÁRIO – Calma, cavalheiros!… um momentinho… Quem vai pagar as despesas do processo?!…

HARPAGON – Não interessa mais o seu processo!…

COMISSÁRIO – Sim, mas eu não vim aqui… por amor à arte! Preciso receber…

HARPAGON (indicando Joaquim) – Pois como pagamento ali está um homem que poderá mandar enforcar…

JOAQUIM – Ai de mim!… Não sei mais como proceder… Se falo a verdade, surram-me; se minto, mandam-me enforcar…

ANSELMO – Devemos perdoar-lhe a impostura, Sr.Hapagon…

HARPAGON – O senhor paga as despesas do comissário?

ANSELMO – Pago… Pago… E agora vamos festejar a nossa alegria ao lado de minha querida esposa.

HARPAGON –Sim… podem ir onde quiserem… Mas eu vou é ver o meu querido dinheiro …

 

 PANO FINAL

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: