Ato I

ATO PRIMEIRO

1

Valério, Elisa

 

VALÉRIO – Minha querida Elisa, está arrependida das promessas que fizemos um ao outro?

ELISA – Não, Valério. Eu não me arrependo do nosso amor. Mas, para ser sincera, estou inquieta e receio gostar de você mais do que desejaria.

VALÉRIO – Receia por quê?

ELISA – Por mil coisas ao mesmo tempo. A cólera de meu pai, os protestos da família, a inconstância do seu coração… 

VALÉRIO – Não me faça a injustiça de julgar o meu coração pelo coração dos outros homens.  Amo-a e meu amor será tão duradouro quanto a minha vida.

ELISA – Nas palavras todos os homens são iguais.

VALÉRIO – Me permita demonstrar a honestidade das minhas promessas.

ELISA – Ah! Como nós nos deixamos convencer pelas pessoas a quem amamos! Sinto que seu coração é incapaz de me enganar.

  VALÉRIO – Se eu puder, como espero, encontrar meus pais, não teremos dificuldade em obter o consentimento do seu. Aguardo notícias a respeito. Se elas tardarem, irei atrás.

ELISA – Não, Valério! Não se afaste daqui, peço-lhe, e trate de conquistar cada vez mais a confiança de meu pai. 

VALÉRIO – Você conhece a máscara de simpatia e de identidade de gênios que eu coloquei para agradar seu pai e que personagem represento diante dele para conseguir sua amizade.   

ELISA – Mas por que não pensa também em conseguir o apoio de meu irmão ?

VALÉRIO – Dois proveitos não cabem num caso só, querida Elisa. Mas você poderá cuidar de seu irmão, já que são tão amigos,  colocando-o do nosso lado. Eis que ele chega.

ELISA – Não sei se terei forças para contar a Cleanto a nossa história. (Valério sai)

 

2

Cleanto, Elisa

 

CLEANTO (entrando) Estava impaciente para contar a você um grande segredo.

ELISA –Que grande segredo é esse?

CLEANTO – estou amando, minha irmã.

ELISA – Você ama?

CLEANTO – Sim, mas sei que dependo de meu pai, que na minha qualidade de filho devo obedecer às suas vontades,  minha irmã, mas meu amor nada quer ouvir.

ELISA – Você já se comprometeu, meu irmão, com aquela a quem ama?

CLEANTO – Não, mas farei isso. E peço que não procure dissuadir-me dessa decisão.

ELISA – Serei eu, meu irmão, uma criatura tão austera assim?

CLEANTO – Não, mas você não ama, ignora a doce violência do amor sobre nossos corações e eu conheço a sua sensatez.

ELISA – Se eu abrisse o meu coração, talvez me considerasse muito menos sensata do que imagina.

CLEANTO – Ah! Irmãzinha, queira Deus que a sua alma seja também…

ELISA (interrompendo-o) – Falemos primeiro no seu caso. Quem é a sua amada?

CLEANTO – Uma jovem que parece ter sido feita para ser amada por todos. Chama-se Mariana e vive com sua mãe. Uma doçura encantadora, uma bondade feiticeira, uma honestidade adorável, uma… ah, minha irmã, você tem que conhecê-la!

ELISA – Para compreender o que ela é, basta que você a ame.

CLEANTO – Descobri que ela não vive muito folgadamente e que seus bens, mal dão para uma vida discreta. Imagine poder aumentar a fortuna de uma pessoa a quem amamos e socorrer as modestas necessidades de uma família virtuosa. E imagine ser impedido de gozar essa alegria, de provar o meu amor, tudo pela avareza de meu pai?

ELISA – Eu compreendo perfeitamente seu pesar, meu irmão.

CLEANTO – Se a sua situação for semelhante à minha e se nosso pai for contra nosso amor, fujamos juntos dessa tirania sob a qual ele nos mantém, tanto tempo, com a sua insuportável avareza.

ELISA – É bem verdade que, todos os dias, ele nos dá motivo para lamentarmos a morte de nossa mãe e que…

CLEANTO (interrompendo) – Ouço a sua voz. Vamos continuar lá fora nossas confidências e juntar forças para enfrentar a dureza de seu mau humor. (saem os dois) 

 

3

Harpagon, La Flèche

 

HARPAGON – Fora daqui, já e já. E nada de responder! Vamos, vamos. Longe da minha casa, refinado tratante, trapaceiro, peralta!…

LA FLÈCHE (a parte) – Nunca vi sujeito pior do que esse maldito velho! Ele tem o diabo no corpo.

 HARPAGON – Que é que tu estás dizendo?!

LA FLÈCHE – Nada, perguntava a mim mesmo por que me manda embora, senhor.

HARPAGON – Mas rapaz… Tem graça eu dar satisfações dos meus atos! Sai daqui, estrupício,  antes que eu te dê uma surra!

LA FLÈCHE – Mas que eu fiz?

HARPAGON – Não importa! Eu quero que tu saias!

LA FLÈCHE – Mas o meu patrão, seu filho, mandou que eu esperasse aqui.

HARPAGON – Pois vai esperar lá na rua. Não quero ter na minha casa um espião dos meus negócios, um traidor cujos  os olhos malditos fiscalizam todos os meus atos, devoram o que eu possuo e farejam de todos os lados, para ver se há alguma coisa que roubar.

LA FLÈCHE – Mas quando, já? Será o senhor capaz de ser roubado, fechando tudo a sete chaves e montando sentinela dia e noite, como faz?

HARPAGON – Eu fecho o que me apetece e faço sentinela como bem entendo! Vejam só que atrevimento: censurar os meus atos!…(baixo, à parte) Saberá alguma coisa sobre meus dez mil escudos? (alto ) Tu és bastante capaz de espalhar o boato de que eu tenho dinheiro escondido aqui em casa, hein?!

LA FLÈCHE – O senhor tem dinheiro escondido aqui?

HARPAGON – Não idiota, não disse que tenho… (à parte) Maldição, maldição… (alto) Pergunto se, maliciosamente, não andas espalhando o que tenho dinheiro oculto…

LA FLÈCHE – Que importa que o senhor tenha ou não tenha, se para nós dá no mesmo?

HARPAGON – Respondes disfarçando e eu não sei onde estou que não te dou um tabefe!… (erguendo a mão contra ele) Vai-te de uma vez!

LA FLÈCHE – Está bem, obedeço.

HARPAGON – Espera, não levas nada?

LA FLÈCHE – Que poderia eu levar?

HARPAGON – Vem cá, mostra-me tuas mãos.

LA FLÈCHE – Pronto.

HARPAGON – As outras.

LA FLÈCHE – Só tenho essas duas.

HARPAGON (indicando as calças de La Flèche) – Não puseste nada aí dentro?

LA FLÈCHE – Veja o senhor mesmo.

HARPAGON (apalpando os calças) – Essas calças são ótimas para esconder coisas roubadas. É uma roupa que não me agrada, bsolutamente.

LA FLÈCHE (à parte) – Oh! Como merecia ter o que receia e como eu ficaria satisfeito se pudesse roubá-lo!

HARPAGON – Hein? Falaste em roubar?

LA FLÈCHE – Dizia que o senhor deve revistar bem, para ver que não roubei nada.

HARPAGON – É isso mesmo que eu vou fazer. (ele revista os bolsos de La Flèche)

LA FLÈCHE (à parte) – Que a peste engula a avareza e os avarentos.

HARPAGON – O que foi?

LA FLÈCHE – Disse que malditos sejam os avarentos.

HARPAGON – E quem são os avarentos?

LA FLÈCHE – Os vagabundos e as ladras.

HARPAGON – Que queres dizer com isso?

LA FLÈCHE – Por que se preocupa com o que eu digo?

HARPAGON – Eu me preocupo com aquilo que bem entendo.

LA FLÈCHE – Pensa que eu me refiro ao senhor quando falo na avareza e nos avarentos?

HARPAGON – Eu penso o que penso, mas quero que me explique aquilo que pensas.

LA FLÈCHE – Eu penso… no meu chapéu, ora.

HARPAGON – E eu bem poderia pensar nas tuas orelhas, hein?!

LA FLÈCHE – Proíbe que eu fale mal dos avarentos?

HARPAGON – Cala-te! Se não te meto a mão, insolente!

LA FLÈCHE – Está bem, calo,  mas é contra a vontade.

HARPAGON – Não interessa!

LA FLÈCHE (mostrando um bolso do casaco) – Ainda falta este bolso. Está satisfeito?

HARPAGON – Vamos, devolve tudo!

LA FLÈCHE – Mas tudo o quê?

HARPAGON – O que me roubaste.

LA FLÈCHE – Mas não roubei nada!

HARPAGON – Tens certeza?

LA FLÈCHE – Claro que tenho.

HARPAGON – Está bem. Então vai pro inferno! Entrego o caso a tua própria consciência, miserável. (La Flèche sai) Eis um descarado que me aborrece bastante.

 

4

Elisa, Cleanto, Harpagon

 

HARPAGON (ainda sozinho) – Por certo não é o pequeno trabalho de guardar em casa uma grande quantia de dinheiro, não sei se fiz bem em enterrar no meu jardim dez mil escudos que recebi ontem. Dez mil escudos em ouro numa casa é… (surgem Cleanto e Elisa, conversando em voz baixa) Céus! Estou me traindo! Creio que falei alto demais, enquanto refletia! (a Cleanto e Elisa) Que há?

CLEANTO – Nada, meu pai.

HARPAGON – Estavam aí há muito tempo?

ELISA – Chegamos agora mesmo.

HARPAGON – E… escutaram?

CLEANTO – O quê, meu pai?

HARPAGON – Vocês escutaram o que eu estava dizendo?

CLEANTO – Não.

HARPAGON – Podem confessar que escutaram.

ELISA – Não compreendo, meu pai.

HARPAGON – É que eu pensava comigo mesmo sobre as dificuldades que existem, hoje em dia, para arranjarmos dinheiro e quanto é feliz quem pode ter dez mil escudos em sua casa.

CLEANTO – Nós hesitávamos em falar, com medo de interromper as suas reflexões.

HARPAGON – Apresso-me em explicar o que dizia para que não se ponham a imaginar coisas erradas e a pensar que sou eu quem possui dez mil escudos.

CLEANTO – Não nos envolvemos em seus negócios, meu pai.

HARPAGON – Quem me dera que eu tivesse dez mil escudos.

CLEANTO – Não acredito que…

HARPAGON – Seria ótimo negócio para mim.

ELISA – São assuntos em que…

HARPAGON – Eu bem que tenho necessidade deles.

CLEANTO – Eu penso que…

HARPAGON – Isso me arranjaria a vida.

CLEANTO – O senhor é…

HARPAGON – E eu não me queixaria, como tenho razões para me queixar, de que os tempos andam péssimos.

CLEANTO – Desculpe, meu pai, mas o senhor não tem necessidade de se queixar e todos sabem que possui uma fortuna bem razoável.

HARPAGON – Como?! Fortuna razoável, eu? Mas quem diz isso mente! São os velhacos que andam espalhando tais boatos.

ELISA – Não se exalte, meu pai.

HARPAGON – É estranho que meus próprios filhos me atraiçoem e se transformem em meus inimigos.

CLEANTO – Dizer que o senhor tem fortuna razoável é ser seu inimigo?

HARPAGON – É, sim senhor! Com tantos falatórios e os gastos de vocês, qualquer dia serei assaltado pelos ladrões, que me degolarão, imaginando que estou forrado de grana.

CLEANTO – Mas quais são as despesas que fazemos?

HARPAGON – Quais são?! Você cheira furiosamente a rapaz rico e, andando assim, é estranho que não seja constantemente furtado. Onde encontra meios para manter esse seu aparato todo?

CLEANTO – Eu jogo, meu pai, e como tenho muita sorte, gasto comigo todo o dinheiro que ganho.

HARPAGON – É muito malfeito!  Se você tem sorte no jogo devia aproveitar e colocar, a um juro honesto, o dinheiro que ganha, para que um dia ele esteja crescido.  

CLEANTO – O senhor tem razão!

HARPAGON – Mas deixemos disso e falemos de outra coisa… (percebendo que os dois moços fazem sinais misteriosos) Então?! (baixo, à parte)  Estarão combinando me roubar ?  (alto) Que gestos são esses?

ELISA – Nós estamos resolvendo quem falará primeiro, pois temos algo a dizer ao senhor.

HARPAGON – Ah!  Sim? Pois eu também tenho qualquer coisa a dizer a ambos.

CLEANTO – É de casamento, meu pai, que desejamos falar.

HARPAGON – É de casamento também que eu desejo fala a vocês dois: do meu casamento… e do casamento de vocês.

ELISA – Como?!

HARPAGON – Por que esse espanto? Está amedrontada com a palavra ou com o fato?

CLEANTO – O casamento pode nos amedrontar a ambos, meu pai, dada a maneira pela qual o senhor encara. E receamos que os nossos sentimentos não estejam de acordo com a sua escolha.

HARPAGON – Não se alarmem, sei o que convém a vocês, os dois não têm motivos de queixa. (a Cleanto) Você já viu, por acaso, uma jovem chamada Mariana, que mora perto daqui?

CLEANTO – Já, meu pai.

HARPAGON (à Elisa) – E você?

ELISA – Já ouvi falar dela.

HARPAGON – Que lhes parece?

CLEANTO – Uma criatura lindíssima.

HARPAGON – Seu rosto?

CLEANTO – Absolutamente honesto e espiritual.

HARPAGON – Seu aspecto e suas maneiras?

CLEANTO – Admiráveis, sem dúvida.

HARPAGON – Não é verdade que uma jovem assim merece que pensemos nela?

CLEANTO – É verdade, meu pai.

HARPAGON – Que ela é um ótimo partido?

CLEANTO – Magnífico.

HARPAGON – Que ela tem toda a aparência de que dará uma excelente dona-de-casa?

CLEANTO – Sem dúvida.

HARPAGON – E que um marido ficaria satisfeito com uma tal esposa?

CLEANTO – Certamente.

HARPAGON – Há uma pequena dificuldade: receio que ela não possua fortuna bastante.

CLEANTO – Ora, meu pai, quando se trata de escolher uma boa esposa, a fortuna não deve pesar muito.

HARPAGON – Não exageremos! Mas se não encontrarmos uma esposa com dinheiro, resta ao menos a esperança de recuperar a diferença sobre outra coisa.

CLEANTO – É claro.

HARPAGON – Fico satisfeito que você compreenda os meus sentimentos, pois – adivinha? – estou disposto a casar com Mariana.

CLEANTO – Como?! O senhor está resolvido a…

HARPAGON –  …casar com Mariana.

CLEANTO – Quem?! O senhor?! O senhor, meu pai?!

HARPAGON – Sim, meu filho! Eu, eu, eu… Porque tanto espanto?!

CLEANTO – Nada, nada… está me dando uma cara branca, com licença… (vai para sair)

HARPAGON – Beba um copo de água pura… (Cleanto sai) Os rapazes de hoje são fracos como passarinhos. (sons e passarinhos) Eis o que resolvi quanto a mim. Quanto a seu irmão, destino-lhe certa viúva da qual me falaram hoje, pela manhã. E quanto a você, esta destinada ao senhor Anselmo.

ELISA – Ao Sr. Anselmo?

HARPAGON – Sim. É um homem maduro, prudente e sensato, que não tem mais de cinqüenta anos e cuja fortuna é conhecidíssima.

ELISA (fazendo uma reverência) – Se me fizer um favor, meu pai, eu não quero casar.

HARPAGON (imitando-a) – E eu, minha filha, se me fizer um favor, quero que você case.

ELISA (nova reverência) – Peço-lhe perdão, meu pai, sou uma humilde criada do Sr. Anselmo, mas, com sua licença, não me casarei com ele.

HARPAGON (imitando-a) – Peço-lhe perdão, minha filha, sou um humilde criado seu, mas, com sua licença, você casará hoje, à noite.

ELISA – Hoje, à noite?

HARPAGON – Hoje, à noite!

ELISA (repetindo a reverência) – Isso não acontecerá, meu pai.

HARPAGON (imitando-a) – Acontecerá sim, minha filha.

ELISA – Não.

HARPAGON – Sim.

ELISA – Não, digo-lhe eu.

HARPAGON – Sim, digo-lhe eu.

ELISA – Eu me matarei antes de casar com ele.

HARPAGON – Você não se matará e casará com ele. (vendo Valério, que entra) Ali está Valério, quer aceitá-lo como juiz da questão? 

ELISA – Aceito.

HARPAGON – E acatará os resultados do julgamento?

ELISA – Quaisquer que sejam.

HARPAGON – Vejamos então… Venha cá Valério!

 

5

Valério, Harpagon, Elisa

 

HARPAGON – Nós te escolhemos para que digas quem tem razão em um assunto: minha filha ou eu.

VALÉRIO – É o senhor, sem dúvida.

HARPAGON – conheces a história?

VALÉRIO – Não, mas sei que o senhor nunca erra.

HARPAGON – Ah! Bravos! Mas escuta: eu quero dar à minha filha, hoje à noite, um esposo tão rico quanto sensato e a infeliz declara, nas minhas barbas, que não se interessa por ele. Que dizes disso?

VALÉRIO – Eu digo que, no íntimo, o senhor tem razão. Mas sua filha também não está inteiramente errada e…

HARPAGON – Como não está?! O Sr. Anselmo é um partido admirável, um cavalheiro nobre, muito bem posto. Poderia uma jovem encontrar coisa melhor?

VALÉRIO – Está claro que não. Ela, porém poderá alegar que esse casamento é um pouco precipitado e que convém esperar mais algum tempo para ver se…

HARPAGON – É uma oportunidade que deve ser aproveitada sem tardança: o Sr. Anselmo se compromete a casar com a minha filha sem exigir dote!

VALÉRIO – Ah, sem dote?!

HARPAGON – Sim, sem dote.

VALÉRIO – Ah! Mas então tudo muda de figura! Isso é uma razão muito mais que convincente…

HARPAGON – Para mim é uma economia considerável.

VALÉRIO – Certamente não há que hesitar! É verdade que sua filha pode dizer que o casamento é um negócio de muito mais vulto do que parece; que a felicidade ou a desgraça do matrimônio são eternas; e que um compromisso que vai durar até a morte só deve ser assumido após grande meditação…

HARPAGON – Mas é sem dote!…

VALÉRIO – O senhor tem razão, eis o que decide tudo! Poderiam dizer que em tais momentos as inclinações de uma moça são coisas que merecem ser consideradas com respeito, e que um grande desequilíbrio entre as idades, os gênios e os sentimentos sujeita o casamento a acidentes bem desagradáveis.

HARPAGON – Mas é sem dote!

VALÉRIO – Ah! Para esse argumento não há réplica! Quem poderá ir contra ele? É verdade que há um grande número de pais que respeitam mais a felicidade de suas filhas do os cordões de suas bolsas. Quem de longe pensa em sacrificá-las aos seus interesses e que procuram, acima de tudo, essa doce conformidade que conserva, no casamento, a honra, a tranqüilidade e a alegria do lar.

HARPAGON – Mas é sem dote!

VALÉRIO – Isso fecha todas as bocas! “Sem dote!”. Não há meio de resistir a um argumento desses…

HARPAGON (prestando ouvidos ao longe) – Parece que ouço um cão ladrar. Oh, meu dinheiro! (a Valério) Não te afastes daqui, volto já. (sai correndo)

ELISA – Você está zombando, Valério?

VALÉRIO – É para não aborrecer seu pai, Elisa, e para alcançar melhor meus fins. Há certos espíritos que só se conquistam com hipocrisia. Faça de conta que consente com o que ele quer. Conseguirá mais rapidamente o que deseja e…

ELISA – Mas esse casamento, Valério…

VALÉRIO – Arranjaremos um meio de rompê-lo.

ELISA – Mas que meio, se ele deve ser assinado ainda hoje?!

VALÉRIO – É preciso pedir um adiamento, fingir qualquer doença.

ELISA – Mas se chamarem médicos, tudo será descoberto.

VALÉRIO – Os médicos sabem lá quando estamos doentes? Com eles você pode apresentar o mal que quiser, porque eles acharão motivos para dizer as causas e as conseqüências de todas as doenças que acusarmos.

HARPAGON (surgindo ao fundo, à parte) – Graças a Deus não era nada!…

VALÉRIO (sem ver Harpagon) – E como último recurso, há a fuga, para ficarmos a salvo de tudo. (ele percebe Harpagon – mudando de tom) Sim, porque é preciso que uma filha obedeça a seu pai. E quando o “sem dote!” entra em jogo, deve estar pronta a aceitar tudo o que lhe oferecerem!

HARPAGON – Bravo! Bravo! Eis o que é falar criteriosamente.

VALÉRIO – Senhor, eu peço perdão se o entusiasmo me arrebata e se eu falo com tanta audácia à sua filha…

HARPAGON – Como assim?! Mas estou encantado, Valério, e quero que você exerça sobre ela uma influência absoluta. (a Elisa) Não adianta hesitar, minha filha, dou a Valério toda autoridade sobre você e desejo que você faça tudo o que ele ordenar.

VALÉRIO (a Elisa) – Depois disso, recuse os meus conselhos, se é capaz! (a Harpagon) Eu vou com ela para o quintal, senhor, continuarei a lição de obediência que estava dando.

HARPAGON – Naturalmente, rapaz, e muito obrigado.

VALÉRIO – Ela acabará cedendo.

HARPAGON – Bravo, muito bem, meu rapaz! Vou dar um pulo até a cidade e votarei logo.

VALÉRIO (dirigindo a palavra a Elisa, enquanto saem) – O dinheiro é o mais precioso dos bens deste mundo, e deve render graças a Deus pelo honesto marido que seu pai lhe destina. Seu pai conhece a arte de viver. Quando nos oferecem aceitar uma jovem sem dote, nada mais deve ser levado em consideração… tudo está limitado, “sem dote!” é uma expressão que substitui a beleza, a mocidade, a fidalguia, a honra, a sensatez e a dignidade… (saem)

HARPAGON (sozinho) – Ah, que rapaz excelente! Fala como oráculo! Felizes os que podem ter um empregado como esse.

 

PANO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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