Ato V

ATO QUINTO

1

Harpagon, Comissário, seu Escrevente

 

COMISSÁRIO – Deixe-me trabalhar, graças a Deus eu conheço o meu ofício. Não foi ontem que eu comecei a descobrir roubos.

HARPAGON – Se o meu dinheiro não for encontrado, eu pedirei justiça à justiça!

COMISSÁRIO – O senhor dizia que o cofre continha…

HARPAGON – Dez mil escudos, bem contados.

COMISSÁRIO – É um roubo bem considerável! Em que espécie estava?

HARPAGON – Em boas moedas de ouro, reluzentes, palpitantes!

COMISSÁRIO – De quem suspeita?

HARPAGON – De todo mundo! Quero que mande prender a cidade e os subúrbios, a Amazônia inteira!

COMISSÁRIO – Não devemos amedrontar ninguém com a prisão. Trataremos de obter, calmamente, algumas provas.

 

2

Os mesmos, Joaquim

 

JOAQUIM (ao fundo da cena, voltando-se para dentro) – Degolem-no, assem-lhe os pés, metam-no na água fervendo e pendurem-no no teto.

HARPAGON – Quem?! O miserável que me roubou?!

JOAQUIM – Um leitão que quero preparar à minha maneira.

HARPAGON – Está bem, mas não se trata disso, agora. Eis aqui um cavalheiro a quem é preciso dizer certas coisas.

COMISSÁRIO – Não se assuste.

JOAQUIM – O senhor também é convidado?

HARPAGON – Trata-se de outra coisa, traidor, e não do jantar! Quero informações sobre o dinheiro que me roubaram!

JOAQUIM – Roubaram-lhe dinheiro?

HARPAGON – Sim, velhaco! E vou mandar que te enforcarem, se não restituíres!

COMISSÁRIO (a Harpagon) – Não o assuste, por favor! Vejo é um homem honesto, incapaz de mentir, e que sem muito esforço dirá tudo o que desejamos saber. (a Joaquim) Meu caro, se confessar a história nada de mal lhe acontecerá. Ao contrário, receberá de seu patrão uma justa recompensa. Roubaram-lhe certa quantia em dinheiro e ele acredita que saiba alguma coisa.

JOAQUIM (à parte) – Eis o momento da vingança contra o intendente!

HARPAGON – Que é que estás ruminando?

JOAQUIM – Patrão, creio que foi o Sr.Intendente que cometeu o crime!

HARPAGON – Valério?!

JOAQUIM – Sim.

HARPAGON – Ele me parecia tão fiel?!

JOAQUIM – Ele mesmo!

HARPAGON – E por que acredita nisso?!

JOAQUIM – Eu acredito…  porque acredito.

COMISSÁRIO – Mas é preciso dizer em que se baseiam as suas suspeitas.

HARPAGON – Viste-o rondar em torno do lugar onde estava o meu dinheiro?!

JOAQUIM – Ah! É mesmo! Onde é que estava o dinheiro?

HARPAGON – No jardim.

JOAQUIM – Justamente! Vi-o no jardim. E o dinheiro estava colocado onde?

HARPAGON – Em um cofre.

JOAQUIM – Pois o vi com um cofre!

HARPAGON – Vejamos se era o meu. Como era esse cofre?

JOAQUIM – Como era feito?

HARPAGON – Sim.

JOAQUIM – Era feito… como um cofre.

COMISSÁRIO – Isto é claro! Mas descreva-o para que tiremos nossas conclusões.

JOAQUIM – Era um cofre… grande.

HARPAGON – O que me roubaram era pequeno.

JOAQUIM – Bem, não era assim tão grande, tão grande… Era até mais para pequeno.

COMISSÁRIO – E de que cor era?

JOAQUIM – Que cor?

COMISSÁRIO – Sim, de que cor.

JOAQUIM – Era… de uma certa cor indecisa. Os senhores não poderiam me ajudar um pouco a dizer isso?!

HARPAGON – Como?!

JOAQUIM – Não era encarnado, era?!

HARPAGON – Não, era cinzento.

JOAQUIM – pois é, cinzento era o que eu queria dizer.

HARPAGON – Então não há duvida! É o meu, com certeza. Meu Deus! Não se pode mais confiar em ninguém! Chego ao ponto de acreditar que até eu sou capaz de roubar a mim mesmo!

JOAQUIM (a Harpagon) – Ei-lo que chega, patrão. Ao menos não digam que fui eu quem o denunciou.

 

3

Valério, Harpagon, Comissário, Escrevente, Joaquim

 

HARPAGON – Aproxime-se, Valério!

VALÉRIO – Que deseja, senhor?

HARPAGON – Como assim, hipócrita?! Não te envergonha do teu crime?!

VALÉRIO – Que crime, senhor?

HARPAGON – Que crime?! É inútil pretender disfarçar!… A história foi descoberta, foi revelado tudo! Penetrar em minha casa expressamente para me trair!

VALÉRIO – Visto que descobriram tudo, senhor, não quero procurar desculpas ou negar meu ato.

JOAQUIM (à parte) – Égua, será que acertei, sem querer?

VALÉRIO – Era o meu desejo falar-lhe, senhor. Estava esperando uma ocasião e circunstâncias mais favoráveis. Peço-lhe que não se zangue e que ouça as minhas razões.

HARPAGON – As tuas razões?! E que razões poderia encontrar um ladrão como tu?!

VALÉRIO – Ah! Meu senhor, não mereço tanta injúria! É certo que cometi uma indignidade contra o senhor, mas no fim de contas a minha falta é muito perdoável!

HARPAGON – Perdoável?!…

VALÉRIO – Peço-lhe que tenha calma! Quando tiver ouvido tudo, verá que o mal não é tão grande quanto parece.

HARPAGON – Hein?! O mal não é tão grande?! Como assim?! Roubas meu sangue, velhaco, e ainda dizes que…

VALÉRIO – Seu sangue não será misturado com sangue indigno, senhor!

HARPAGON – Ainda bem! Mas quero que me restituas o que roubaste. Mas como foi que praticaste semelhante coisa?

VALÉRIO – Por causa de um Deus que explica tudo o que fazemos em seu nome: o amor.

HARPAGON – O amor?!

VALÉRIO – Sim.

HARPAGON – Lindo amor, na verdade! Amor ao meu ouro!

VALÉRIO – Não, senhor, não foram suas riquezas que me tentaram. Eu afirmo nada desejar do que possui, a não ser o que eu já possuo.

HARPAGON – Nada disso! Mas que insolência quereres conservar o roubo que me fizeste!  

VALÉRIO – O senhor chama isso um roubo?!

HARPAGON – Se eu chamo um roubo?! E há outro nome para classificar o delito? Um tesouro como esse!

VALÉRIO – Um tesouro, sem dúvida, o mais precioso que o senhor possui. Mas nada perderá se ele ficar comigo. Peço-lhe de joelhos que me deixe esse tesouro, cheio de encantos.

HARPAGON – Ora que audácia do bofe! Recuso, recuso, recuso sim senhor!

VALÉRIO – Juramos que nada nos separaria.

HARPAGON – Juramento muito divertido!

VALÉRIO – Nós nos prometemos pertencer eternamente um ao outro!

HARPAGON – Mas impedirei, palavra de honra!

VALÉRIO – Só a morte pode nos separar!

HARPAGON – Isso é que é paixão pelo dinheiro alheio!

VALÉRIO – Eu já lhe disse, senhor, que não agi com interesse, um motivo mais nobre inspirou a minha resolução.

HARPAGON – Hum, vai acabar afirmando que foi movido por uma grande caridade cristã. Mas eu sei como proceder.

VALÉRIO – Acredite que sou o único culpado de tudo e sua filha está inocente!

HARPAGON – Minha filha?! É claro que está inocente. Quero reaver o que é meu e exijo que digas onde escondeste o que me roubaste.

VALÉRIO – Está aqui mesmo, em sua casa.

HARPAGON (à parte) – A minha querida fortuna está aqui. (alto) E tu não lhe tocaste?!

VALÉRIO – Eu, tocar-lhe?! O senhor está enganado quanto as minhas intenções! Preferiria morrer a ofendê-la, mesmo em pensamento!

 HARPAGON (à parte) – Mas ele fala da minha fortuna como um amante falaria de sua amada!

VALÉRIO – A Srª Cláudia está a par de toda a verdade e poderá servir de testemunha.

HARPAGON – Como assim, minha criada é cúmplice?

VALÉRIO – testemunhou nosso primeiro encontro… E depois de conhecer a honestidade de minhas intenções consentiu em me ajudar a persuadir sua filha a…

HARPAGON – Hein?! Persuadir minha filha?! (à parte) Será que ele enlouqueceu com medo do castigo? (alto) Que é que minha filha vem fazer no caso?!

VALÉRIO – Digo, senhor, que tive todas as penas do mundo antes de fazê-la consentir em ser minha noiva, vencendo o seu adorável pudor.

HARPAGON – O adorável pudor de quem?

VALÉRIO – De sua filha. Foi apenas ontem que ela decidiu casar comigo.

HARPAGON – Minha filha está comprometida contigo, em casamento?

VALÉRIO – E eu com ela.

HARPAGON – Maldição, maldição, maldição! Outra desgraça!

JOAQUIM – Eu não disse?

HARPAGON – É tudo pior do que eu pensava! Maldição e desespero! (ao Comissário) Vamos, senhor, cumpra o seu dever e lavre-me um processo contra esse miserável, como ladrão e sedutor!

VALÉRIO – São palavras um pouco duras as suas, senhor, e quando souber quem eu sou.

 

4

Valério, Joaquim, Comissário, Escrevente, Elisa, Mariana, Frosina, Harpagon

 

HARPAGON (vendo Elisa) – Ah! Filha desnaturada! Indigna de um pai como eu!… É assim que tu pões em prática as lições que recebeste?!… Deixas que um ladrão te ame e ficas comprometida com ele, sem meu consentimento?!… Mas estão enganados, um e outro!

ELISA (aos pés de seu pai) – Ah! Meu pai!… Fique mais humano. Considere um pouco aquilo que tanto lhe ofende!… É bem diferente do que imagina. E achará menos estranho que tenha me comprometido com Valério quando souber que ele me salvou do grande perigo que eu corri quando quase me afoguei.

HARPAGON – Nada disso interessa! Seria melhor para mim que ele te deixasse afogar, em vez de fazer o que fez.

ELISA – Meu pai…

HARPAGON – Não, não, não quero ouvir mais nada. A Justiça que cumpra o seu dever.

JOAQUIM (à parte) – Pagarás as bastonadas de hoje, bandido!

FROSINA (à parte) – Que coisa confusão!

 

5

Anselmo, Harpagon, Elisa, Mariana, Frosina, Valério, Joaquim, Comissário, Escrevente

 

ANSELMO – Olá, Sr. Harpagon. Que perturbação é essa por aqui?

HARPAGON – Ah!  Sr. Anselmo! Eu sou o mais desafortunado dos homens! Assassinaram-me na fortuna e na honra. Eis aí um traidor que violou minha hospitalidade, penetrou na minha casa sob o disfarce de criado para roubar meu dinheiro e seduzir minha filha!

VALÉRIO – Mas quem é que quer seu dinheiro, senhor?!

HARPAGON – Eles fizeram um ao outro uma secreta promessa de casamento. Essa afronta atinge também ao senhor, Sr. Anselmo.

ANSELMO – Não é meu desejo fazer-me desposar à força. Quanto aos seus interesses, como amigo estou pronto a considerá-los como meus, defendendo-os como for possível…

HARPAGON – Eis aqui o cavalheiro que é um excelente comissário de justiça e que punirá convenientemente os culpados… (ao comissário, indicando Valério) Não o deixe escapar!

VALÉRIO – Não vejo que crime cometi, apaixonando-me por sua filha. E quando souberem quem sou…

HARPAGON – Pouco me importa quem o senhor é. O mundo hoje está cheio de impostores.

VALÉRIO – Saiba que eu sou um fidalgo, e toda a cidade de Nápoles pode testemunhar a meu favor.

ANSELMO – Cuidado com o que afirma, rapaz! Porque fala diante de um homem que conhece toda a cidade de Nápoles.

VALÉRIO (colocando orgulhosamente seu chapéu) – Eu nada receio e, se toda Nápoles era conhecida sua, não deve ignorar quem era D. Thomaz d´Alburcy!

ANSELMO – Naturalmente que não ignoro! E poucos poderão tê-lo conhecido melhor do que eu.

HARPAGON – Pouco me importa D. Thomaz ou D. Martinho!

ANSELMO – Calma, que quer dizer?

VALÉRIO – Eu quero dizer que sou filho de D. Thomaz d`Alburcy!

ANSELMO – Filho dele?!

VALÉRIO – Sim.

ANSELMO – Não brinque! Procure qualquer outra história que possa ser mais convincente!

VALÉRIO – E o senhor, procure falar com mais respeito! Nada digo que não possa ser comprovado.

ANSELMO – Ousa, então, afirmar que é filho de D Thomaz d`Alburcy?!

VALÉRIO – Ouso e estou pronto a sustentar essa verdade contra tudo e todos.

ANSELMO – Que audácia! Saiba então que há dezessete anos, mais ou menos, o homem de quem fala morreu num naufrágio, com seus filhos e sua esposa, ao fugir às cruéis perseguições que se seguiram às desordens políticas de Napoles.

VALÉRIO – Sim, mas saiba então o senhor que um filho desse homem, uma criança com sete anos de idade, foi salvo por um navio espanhol, em companhia de um criado, e que esse filho sou eu. Saiba que o comandante do navio tomou-se de interesse por mim, e que eu fui criado como seu filho. Saiba que um dia me informaram de que meu pai não tinha morrido, como todos acreditavam. Que passando por aqui, à procura dele, encontrei Elisa e fiquei escravizado pela sua beleza. Que a intensidade do meu amor e as severidades do pai dela forçaram-me a entrar nessa casa como um simples criado.

ANSELMO – Mas que testemunhas mais, além das suas palavras, podem servir para demonstrar que tudo isso é verdade?

VALÉRIO – O capitão espanhol, primeiro; um saquinho de rubis que pertencia a meu pai; um bracelete de ágata que minha mãe colocou no meu braço quando partimos… e o velho Pedro, o criado que se salvou comigo no naufrágio.

MARIANA – Ai de mim! Pelas suas palavras eu posso afirmar que você está falando a verdade e o que diz informa, sem possibilidade de erro, que… eu sou sua irmã.

VALÉRIO – Você, minha irmã?!

MARIANA – Meu coração se convenceu desde que você começou a falar. Nossa mãe me contou mil vezes a nossa aventura. Quis Deus que não morrêssemos nesse naufrágio.

ANSELMO – Louvado seja Deus!. Só por um milagre poderia eu viver um momento como este! Beijem-me, meus filhos! Dividam um pouco a alegria desse encontro, com vosso pai.

MARIANA – O senhor é aquele por quem minha mãe tanto tem chorado?!

ANSELMO – Sim, minha filha… Sim, meu filho… Eu sou D. Thomaz d`Albuscy.

HARPAGON (indicando Valério) – Então ele é seu filho?!…

ANSELMO – Está provado que sim.

HARPAGON – Então o senhor fica responsabilizado pelos dez mil escudos que ele me roubou.

ANSELMO – Ele roubou dez mil escudos do senhor?

HARPAGON – Roubou, roubou, roubou sim.

VALÉRIO – Quem lhe disse isso?

HARPAGON – Mestre Joaquim.

VALÉRIO (a Joaquim) – Disseste isso?!

JOAQUIM – O senhor bem vê que estou calado.

HARPAGON – Ali está o Comissário que tomou as suas declarações.

VALÉRIO – E o senhor acreditou que eu fosse capaz de uma ação tão baixa?!

HARPAGON – Capaz ou não, eu quero reaver meu dinheiro!

 

6

Os mesmos, Cleanto, La Flèche

 

CLEANTO – Não se desespere mais, meu pai, e não acuse ninguém pelo furto dos dez mil escudos. Descobri onde está o seu dinheiro e venho aqui para declarar que, se o senhor consentir meu casamento com Mariana, ele lhe será restituído.

HARPAGON- Onde ele está?! Você sabe?!

CLEANTO – Não tenha receio! Está seguro. Agora escolha: ou consente em me dar Mariana ou perde o cofre.

HARPAGON – Não mexeram no que ele contém?

CLEANTO – Está intacto! Dê a sua aprovação e eu serei o mais feliz dos homens.

HARPAGON – Para que eu possa deliberar sobre qualquer coisa, preciso rever meu querido cofre.

CLEANTO – O senhor vai revê-lo puro e imaculado.

HARPAGON – Além disso, não possuo um vintém disponível para o dote dos meus filhos.

ANSELMO – Não importa! Eu tenho dinheiro bastante para ambos.

HARPAGON – E o senhor se responsabiliza por todas as despesas?!

ANSELMO – Com grande prazer. Está satisfeito?!

HARPAGON – Ainda não. Preciso de uma roupa nova para as bodas.

ANSELMO – Seja. Eu pagarei a roupa. E agora vamos festejar juntos, a alegria que o dia de hoje nos proporcionou.

COMISSÁRIO – Calma, cavalheiros, um momentinho; quem vai pagar as despesas do processo?!…

HARPAGON – Não interessa mais o seu processo!

COMISSÁRIO – Sim, mas eu não vim aqui por amor à arte!

ANSELMO – Foi amor à arte que promoveu este encontro! Por isso solicitamos a todos uma singela contribuição, para arcarmos com a despesas do processo e, assim, possamos voltar sempre e sempre a esta praça. Abram vossos corações… e abram sobretudo vossas  carteiras e bolsas. Qualquer quantia serve! Celebremos e vamos festejar o encontro do amor e a arte!

HARPAGON – Sim, podem ir onde quiserem, eu vou é ver o meu querido dinheirinho .

PANO FINAL

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